Poema onde assentam o amor e a morte 

(Depois da sua partida.)

 

 

dentro de mim o urro

imóvel como um bicho à espreita

afoga-me o peito

onde assentam a morte e o amor

compondo esta dor que encerra

ante teu corpo miúdo

meu luto rouco de fera

 

o amor e a morte, no entanto

‒ no canto que entretece

a lacuna de um tempo sem ti

que ainda me reste ‒

calam-me a dor

desinformam a poesia

impedem a lucidez

amordaçam o desespero

reprimem com o silêncio

a bruta emoção

que ocupa a tua ausência

 

cobre-me de amor e morte

a dor

cobrem-me de morte e amor

lembranças

 

Quantas vezes executarei em meu corpo a marcha do teu encantamento?

 

 

 

(Após a sua partida.)


vórtice

a morte recolheu-me o norte

paralisou-me vértice sem geometria de rumos

 

em perfeito

estado de incompreensão

sou-me dor absoluta

ante a ausência bruta 

 

vida em suspensão ocupa-me o vazio

 

onde antes o amor me exercia através de você

hoje a morte me ausenta da vida

sem que eu precise morrer

 

(Depois que você se foi.) 

a morte

levou-me o amor

e não me deu aporte

para que eu tivesse

a mesma sorte

um norte

para o meu final

 

recebo a sós

esta dor indecifrável

e a guardo

em espaços

nos quais permaneço

em tempo aberto

e meu amar

permanece

em qualquer tempo

 

Meu amor e eu

nos comunicamos

com tamanha afinidade

que dispensamos palavras

podemos dizer-nos

sem que a malha da linguagem

comprometa o compromisso

de amar infinito

 

 

De novo e outra vez

De novo e outra vez

uma vez mais e sempre

sempre mais

está conforme à minha vontade.

 

Trazer aos meus poros

suas mãos

trazer sua voz

aos meus ouvidos

deixá-la penetrar os meus sentidos

em nuances de arrepios

sobre a carne viva

do meu corpo

invadido fustigado

por esse látego abençoado.

 

De novo e outra vez

uma vez mais e sempre

sempre mais

está conforme à minha escolha

por nenhuma razão

intrínseca ao meu amar

porque não há intrínseco valor

em coisa alguma.

 

A pulsão do querer

essa escolha que em mim se mantém intacta

ela que é minha e minha somente

é ela quem dá valor ao que minh'alma sente

de novo e outra vez

e uma vez mais

e sempre.

 

 

 

NOTURNO

 

As coisas que me noturnam

me vão profundo.

Derramam-se para o interior de mim.

Sombreiam-me com delicadezas nuas

os poros

minha pele habitada pela noite

esta que me veste

o corpo exterior

noturno meu, particular.

 

Parco em palavras

versejo meus olhos prolixos

que se abrem

dentro das pálpebras fechadas

e povoam os buracos negros

da minha pele

com imagens-sensações

do teu corpo miúdo

arrepio de antecipações

pulso de estrelas

na negra noite de eu-me ser

em ti

e ter-te em mim

visceralmente     

em êxtase.


 

 

POSSESSIVOS

Minha é palavra pequena

Manah é pequena palavra

no susto dos possessivos

eu não sou dono de nada.

 

Meu pequeno grande amor

digo meu porque eu o sinto

não é minha a quem dedico

não sou seu porque o digo.

 

Cada qual apropriado

de si na sua feitura

dá-se como se permite

possui o que em si cultua.

 

Na frase: “minha pequena”

não é posse o que eu afirmo

o possessivo é presente

do meu sentimento ativo

 

que faz de mim um trajeto

entre o assombro e o sonho

de constar em seu afeto

meu lugar em seus sentidos.

 

Todo meu amor,

Sebá.


 

IDENTIDADE

Sou um animal que ruge

grande, rude

músculos à flor da pele

assaltos de contrações e sustos tamanhos

como o desenho dos bíceps

e das coxas nuas

despidas emoções no corpo agigantado

na matéria mesma que o mantém atado

há gerações.

 

Arcabouço pesado

bruto sentido

carne vasta das desproporções

estrutura de fragilidades   

instintos, impulsos

ante a delicadeza das devoções

sou o grande animal solto no espaço

do próprio corpo onde se forja

o ronco primordial das feras

e das paixões.

 

Sou humano animal

matéria venosa

buscando sangue arterial

que purifique as entranhas

das desatadas pulsões

deste amor visceral.

 

 Todo meu amor,

Sebá.